Tuesday, October 27, 2015

A REVOLUÇÃO CHEGOU PRA FICAR: A ERA DA MÚSICA GRÁTIS.

Aquele amigo que começou a se desfazer de sua preciosa coleção de discos e só acredita no streaming. Um primo que lotou HDs e CDs virgem com MP3 e hoje se vê com um quartinho cheio de entulho. Um conhecido que descobriu milhares de novidades e agora só quer saber de bandas experimentais da Islândia – e em vinil. Se você esteve na internet durante o fim da década de 1990 e o começo dos anos 2000, provavelmente pôde conhecer alguns desses personagens – ou talvez até seja algum deles. Há, no entanto, personagens importantes que você não conhece.
Pode parecer até o início de uma piada ruim, mas um engenheiro de som alemão, um empresário da música e um operário de uma fábrica de discos do sul dos Estados Unidos são os responsáveis pela mudança na forma como ouvimos (e consumimos) nossas canções favoritas hoje. Sem desfecho sem graça, mas com muito bom humor, o jornalista norte-americano Stephen Witt explica como esses três caras – Karlheinz Brandeburg, Doug Morris e Dell Glover, respectivamente – fizeram essas mudanças (um pouco sem querer) em “Como a Música Ficou Grátis” (“How Music Got Free” no original), trabalho obrigatório publicado em julho deste ano pela Intrínseca com tradução de Andrea Gottlieb de Castro Neves e 272 páginas.
Colaborador da revista americana New Yorker, Stephen Witt usa uma estrutura digna dos melhores thrillers hollywoodianos para contar a história de como o MP3 foi criado e se tornou o formato padrão para o vazamento e a propagação da música na internet nos últimos 20 anos. Tudo começa dentro dos laboratórios do Instituto Fraunhofer, com a equipe liderada por Karlheinz Brandenburg tentando descobrir um novo algoritmo para transmitir música de forma digital sem que ela perca a qualidade. É um começo árido, entre guerras de patentes e muita briga entre burocratas e cientistas, mas que vale a pena. Praticamente derrotado nos comitês de padronização de formatos, o MP3 encontraria seu sucesso (e daria muito dinheiro aos donos de suas patentes) justamente por auxiliar usuários de todo mundo a quebrar os direitos autorais… da indústria da música.
A indústria da música, por sua vez, é muito bem representada por Doug Morris: alto executivo de gravadoras como Time-Warner e Polygram, Morris aparece ao longo do livro para ilustrar os altos e baixos que o setor fonográfico viveu nas últimas duas décadas. Da histeria do auge do CD – seja nos inúmeros e lucrativos relançamentos ou na descoberta dos rappers que pareciam pequenas minas de ouro – à derrocada da mídia física, passando pelas brigas entre bandas e os sites de compartilhamento (um abraço, Shawn Fanning!), Morris é um personagem importantíssimo nessa trajetória. Acompanhá-lo ao longo de “Como a Música Ficou Grátis” é, por vezes, ver um filme cujo protagonista é o (ou parece ser) o vilão da história, tentando a todo custo fazer o fã de música gastar o seu rico dinheirinho.
Só pela história de Morris e Brandenburg (e de outros altos executivos, inovadores e celebridades como Steve Jobs e Jay-Z), “Como a Música Ficou Grátis” já valeria a pena por seu texto envolvente e muito bem explicativo. No entanto, é ao contar a história de Dell Glover que o livro se torna uma aula de jornalismo: fã de rap, motocicletas e de tatuagens, Glover era apenas um dos muitos operários da fábrica de CDs da PolyGram na Carolina do Norte nos anos 1990. Para sustentar seus muitos hobbies, no entanto, Glover logo percebeu que tinha uma mina de ouro ao alcance das mãos e de um drive de gravação de CDs: com a ajuda de colegas, ele logo se tornou um dos maiores vendedores de discos piratas das redondezas.
Não era o bastante: ao longo de uma década, ele se tornaria um dos principais vazadores de álbuns em MP3 do mundo, abastecendo uma cadeia que saía de grupos fechados e selecionados de hackers e experts em música para o universo altamente compartilhado dos programas de peer-to-peer como Napster, KaZaa, LimeWire e Soulseek. Ao perfilar Glover com uma proximidade intensa, Witt traz a seu livro uma história inesperada sobre como discos guardados a sete chaves – lembra do rolo que aconteceu após o vazamento de “St. Anger”, do Metallica? – chegavam aos internautas de todo o mundo, decifrando um enigma que fazia gente como Morris arrancar os cabelos.
“Como a Música Ficou Grátis” não tenta traçar um panorama amplo da música hoje em dia, nem tenta refletir com bola de cristal se a aposta da indústria fonográfica nos serviços de streaming vai dar certo ou errado (shake it off, Taylor!). Pode parecer uma falha, mas é um ótimo serviço: com boas histórias e apuração competente (que avança até as investigações do FBI para punir os vazadores e o aparecimento do YouTube como uma lucrativa plataforma de música), Stephen Witt faz muito mais para quem quer entender o negócio da música nos tempos de hoje, em uma trama cheia de coadjuvantes de luxo, reviravoltas e sacadas inteligentes. Se você é fã de música (como alguns dos personagens lá de cima ou a maioria dos leitores do Scream & Yell), não hesite em pegar esse livro pela mão e lê-lo até o final. O resto (não) é silêncio.