Friday, June 3, 2011

MARACANÃ E MINHAS TARDES ETERNAS.

Lendo esas atrocidades que estão fazendo com o Maracanã, dia desses me passou um filme na cabeça, de meus tantos domingos "eternos" no templo, onde sempre fui torçer pelo meu Flamengo, ali na "arquiba", junto da moçada, tomando uma cerveja e fumando um cigarrinho, sem ligar se é ou não saudavel. A democracia sem grilos do maraca...onde as classes sociais se falam e se igualam.
Eu não sou contra o progresso, mas estes estadios aqui da Europa são chatos....apesar de se poder beber e de serem limpinhos, não tem o clima do velho maraca...os cachorros quentes geneal, frios e amassados, mas que salvavam a patria....o mate, o jeito malandro do vendedor, que não sabe se ve o jogo ou se vende....a famosa frase "suderj informa" que fz parte do show...enfim....agora isso tudo acabou..só ficou a memoria...e quem não foi, perdeu.
Por isso reproduzo aqui uma cronica belissima, que me faz encher os olhos de lágrimas toda vez que a leio:


" Maracanã" do mestre eterno Armando Nogueira, publicada quando da comemoração dos 40 anos do estadio, ( em 1990)e que, em 2000 fez 50 e em 2010 fez 60 anos!


MARACANÃ

"Revejo, com saudade,
as bandeiras das tuas batalhas repartidas sobre o campo.
Revejo, com saudade,
a tua multidão que torce e distorce a verdade até morrer,
doa a quem doer.
Revejo, com saudade, as esperanças que se perdiam pela linha de fundo 
no entardecer de cada jogo.
Quantas vezes foste a minha pátria amada, idolatrada,
salve, salve a seleção!
Quantas vezes a minha alma escapava de mim
e, sem que o árbitro notasse, aparecia na pequena área,
providencial, para fazer o gol da vitória.
Perdi a conta dos gols
que fiz com pés que nunca foram meus.
Saudade de certa lágrima de vitória 
que, um dia, vi brilhar no rosto quase meu de uma criança.
Maracanã.
És a fantasia da paixão
que aproxima e divide:
louvor e blasfemia,
alegria e desdita.
És o gol de Gigghia,
celebrado com um minuto de silêncio à soberba nacional.
És o ignorado herói de uma tarde
cujo gol restou sem data
como se nunca houvera sido feito.
És gol de placa
que ninguém sabe ao certo como nasceu
mas que o tempo
vem tratando de fazé-lo cada dia mais bonito.
Gol de fábula.
És o craque que passa, sem pressa,
tecendo a promessa de gol com a bola nos pés
e os olhos na linha do horizonte.
És Gérson e Jair da Rosa Pinto
que tinham no pé esquerdo o rigor da fita métrica.
És Nilton Santos, futebol de fino trato,
na majestade e no saber.
És Zizinho, que conhecia, como ninguém,
todos os atalhos da tua geometria.
És Zico que driblava triscando a grama,
suave como uma pluma.
És a "folha-seca" de Didi,
fidalgo de rara nobreza
que tratava a bola como se trata uma flor.
És Ademir Menezes correndo, olímpico,
pelos indizíveis caminhos do gol.
És Carlos Castilho, santo goleiro
que fazia milagres pelos confins da pequena área.
És Pelé,
cujos gols eram tramados na véspera 
(ele trazia de casa as traves e a bola do jogo).
És Garrincha que dobrava as esquinas da área 
driblando Deus-e-o-Mundo
com a bola jovial da nossa infância.
Quanta saudade
daquele drible pela direita
que alegrava as minhas jovens tardes de domingo.
És, enfim, a vitória e a derrota,
caprichosa imitação da minha vida.
E porque és uma parte da minha memória,
seguirei cantando, comigo, a melodia de teu doce nome:
Maracanã, Maracanã ! "