Tuesday, November 2, 2010

Livro: Seu Madruga, Vila e Obra


Fonte: Scream & Yell

De LondresEm seu livro Groucho-marxismo, o filósofo anarquista Bob Black prega, sem rodeios, que “ninguém jamais deveria trabalhar (…) Para parar de sofrer, precisamos parar de trabalhar”. Seu Madruga, o desempregado crônico que garante de forma involuntariamente tragicômica a alegria – e o pathos – da vila onde mora o garoto Chaves, nunca ouviu falar de Black. Mas certamente gostaria de seus escritos.

A inusitada ponte entre o subversivo e o malandro mexicano é uma das conclusões a que Pablo Kaschner chega em seu livro “Seu Madruga – Vila e Obra” (Editora Mirabolante). O autor, carioca de 28 anos que já editou outro livro (”Chaves de um sucesso”) sobre o humorístico mexicano exibido pelo SBT, compôs menos uma biografia do que um “livro-homenagem” sobre o personagem, tido como o mais popular do programa entre os fãs brasileiros (e não só eles). Para Kaschner, Madruga, criação do ator Ramón Valdés (1923-1988), desperta tanta identificação por incorporar (com sua aversão ao trabalho, as dívidas eternas, as humilhações e o humor diante das dificuldades) um pouco do caráter do brasileiro típico.


– Mesmo mexicano, Madruga tem o famoso jeitinho brasileiro – constata o autor, diplomado em rádio e TV. – Dos personagens do Chaves, ele é o mais maroto, o que dá voltas nos outros, o mais politicamente incorreto. Basta andar pelas ruas das cidades brasileiras e é possível encontrar sósias do Seu Madruga em todo lugar.
Apesar de não ter um caráter de ampla pesquisa biográfica, “Vila e Obra” traz muita informação e curiosidades sobre Valdés e seu mais famoso personagem, tudo em tom muito bem humorado. Dividido em 14 capítulos (um para cada mês de aluguel que Madruga deve ao Seu Barriga, dívida que nunca será saldada), o volume mostra que Valdés já era um ator de carreira consolidada ao ser convidado para entrar em “El Chavo del Ocho” (nome original do programa Chaves) em 1971.
Madruga, originalmente chamado apenas Don Ramón, era parecido em tudo com o próprio Valdés. A única recomendação que Roberto Gomes Bolaños (criador do programa e intérprete do próprio Chaves) deu ao ator era que Valdés “fosse ele mesmo”. E, confirma Kaschner, através de depoimentos dos filhos do ator, que Valdés realmente se vestia como Madruga (jeans surrados, camisetas básicas) e repetia diante da câmera frases de seu vocabulário cotidiano.


Para o autor, a preguiça e a vocação para o ócio de Madruga o tornaram um ícone latino-americano. Ou, como o próprio Kaschner brinca, “ladino-americano”:
– Ele agora é mais que um ícone pop. Nas ruas, há mais camisetas com o rosto do Madruga do que com a foto do Che Guevara – arrisca. – O interessante é que essa identificação superou um bloqueio histórico que os brasileiros tinham com a cultura mexicana, que aqui sempre foi sinônimo de dramalhão, de coisa brega. Costumo dizer que o Chaves conseguiu unificar a América Latina, algo que o (Hugo) Chavez não conseguiu.


Exibido pelo SBT desde 1983, Chaves é certamente um caso único de longevidade na TV brasileira, quiçá mundial. Desde sua estreia, o programa nunca deixou a grade da emissora, apesar do excesso de reprises (o canal de Silvio Santos recebeu seus últimos episódios inéditos em 1992!), sendo transmitido praticamente todos os dias da semana durante esses 27 anos.


Em 1990, chegou aos 36 pontos de audiência, superando a Rede Globo várias vezes, apesar das tresloucadas trocas de horário. A assessoria de imprensa do SBT informa que agora, exibido apenas aos sábados (às 6h e 12h45) e aos domingos (das 9h às 11h), o seriado ainda atinge 7 pontos de média. Mesmo assim, sabe se lá quando você estará lendo esse texto, verifique na grade do SBT para ter certeza dos horários de exibição do programa.
– O brasileiro se mobiliza por poucas coisas. O Chaves é uma delas – conclui Pablo Kaschner.